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Origem dos instrumentos de metal

Por Fábio Flatschart

Os instrumento de metal são conhecidos desde a Pré-História, embora pareça mais apropriado chamá-los de instrumentos de sopro labial pois é a maneira de tocar que eles têm em comum, e não o material de que são feitos, já que os antepassados do atuais instrumentos de metal eram produzidos com as mais diversas matérias primas como bronze, madeira, chifre de animais ou argila.

Não se sabe exatamente que tipo de música foi tocada pelos instrumentos desse período, mas o seu som intenso e marcante deve ter sido usado, a princípio, como forma de sinalização.

Foram usado também utilizados ​​em rituais religiosos, grandes cerimônias, e definitivamente em operações militares.

No Egito

Trombetas egípcias - Flatschart Horns
Trombetas egípcias

Acima duas trombetas (khnoue) que foram encontradas no túmulo de Tutancâmon no Egito por volta de 1400 a.C. Uma delas é feito de prata com 58 cm de comprimento e a outra de bronze banhado a ouro com 49,4 cm de comprimento. Ambas possuem um bocal metálico em forma de anel.

Dançarinas egípcias e trombeta - Flatschart Horns
Dançarinas egípcias e trombeta

Acima um alto relevo egípcio feito na pedra entre 1353 e 1335 a.C mostrando um grupo de dançarinas seguido por um homem tocando uma trombeta.

Em Israel

Os israelitas aperfeiçoaram um tipo trombeta de guerra egípcia após o seu exílio e a chamaram de Hazozra. Este instrumento é citado no Antigo Testamento, no Livro dos Números 10:1-8.

Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo:
Faze-te duas trombetas de prata; de obra batida as farás, e elas te servirão para a convocação da congregação, e para a partida dos arraiais.
E, quando as tocarem, então toda a congregação se reunirá a ti à porta da tenda da congregação.
Mas, quando tocar uma só, então a ti se congregarão os príncipes, os cabeças dos milhares de Israel.
Quando, retinindo, as tocardes, então partirão os arraiais que estão acampados do lado do oriente.
Mas, quando a segunda vez retinindo, as tocardes, então partirão os arraiais que estão acampados do lado do sul; retinindo, as tocarão para as suas partidas.
Porém, ajuntando a congregação, as tocareis; mas sem retinir.
E os filhos de Arão, sacerdotes, tocarão as trombetas; e a vós serão por estatuto perpétuo nas vossas gerações.

Números 10:1-8

 Alto relevo do Arco do Trinfo de Titus Flavius Vespanius em Roma - Flatschart Horns
Alto relevo do Arco do Trinfo de Titus Flavius Vespanius em Roma

Na figura acima, uma cena no Arco do Triunfo do imperador Titus Flavius Vespasianus, erguido em Roma (70 d.C.) após a conquista de Jerusalém que mostra duas trombetas (hazozras) entre o espólio de guerra.

Outro instrumento de sopro labial israelense é o Schofar, feito de chifre de bode ou de carneiro e ainda hoje usado em sinagoga. Para fazer um Shofar o chifre do animal é aquecido e modelado.

Shofar - Flatschart Horns
Shofar

Conta a Bíblia que com o uso de sete desses instrumentos, Josué e seus sacerdotes conseguiram derrubar os muros de Jericó.

E sete sacerdotes levarão sete buzinas de chifres de carneiros adiante da arca, e no sétimo dia rodeareis a cidade sete vezes, e os sacerdotes tocarão as buzinas.
E será que, tocando-se prolongadamente a buzina de carneiro, ouvindo vós o seu sonido, todo o povo gritará com grande brado; e o muro da cidade cairá abaixo, e o povo subirá por ele, cada um em frente.Josué 6:4,5

Na Grécia

O gregos usavam um tipo de trombeta chamada Salpinx. É mostrada em muitas imagens, mas resta apenas um exemplar de cerca de 450 a.C.

É feita de partes de marfim unidas com anéis de bronze, metal também utilizado no bocal e na campana.

Salpinx grego - Flatschart Horns
Salpinx grego

No Império Romano

Os romanos herdaram seus instrumentos de metal dos antigos etruscos. O exército romano era uma máquina de guerra bem organizada e conta a história de que os inimigos temiam o som vindo das suas legiões de soldados.

Alguns instrumentos se destacavam, cada um com sua própria função:

  • Lítuo (Lituus)
  • Tuba (Tubus)
  • Corno (Cornu)
  • Buzina (Buccina)
O Lítuo (Lituus) era usado pela cavalaria - Flatschart Horns
O Lítuo (Lituus) era usado pela cavalaria
A Tuba (Tubus) romana não tem qualquer ligação com a tuba moderna -  Flatschart Horns
A Tuba (Tubus) romana não tem qualquer ligação com a tuba moderna
Corno (Cornu) - Flatschart Horns
Corno (Cornu)

A Buzina (Buccina) era semelhante ao Corno (Cornu), e era utilizada para marcar as mudanças das horas nos turnos da noite.

Quem executava qualquer um desses instrumentos geralmente era chamado de buccinator (buccinatores no plural), cuja tradução literal é tocador de buzina, mas algumas vezes eram utilizados nomes específicos como cornicines (tocadores de corno) e tubicens (tocadores de tuba).

Buccinatores tocando tubas e cornos - Flatschart Horns
Buccinatores tocando tubas e cornos / Coluna de Trajano em Roma
Buccinator tocando corno / Alto relevo de um sarcófago romano - Flatschart Horns
Buccinator tocando corno / Alto relevo de um sarcófago romano
Soldados romanos com tubas e cornos / Gravura de 1533, MET/NY  - Flatschart Horns
Soldados romanos com tubas e cornos / Gravura de 1533, acervo do Metropolitan Museum of Art (NY/EUA)

No Centro e Norte da Europa

Alphorn (Trompa Alpina) - Flatschart Horns
Alphorn (trompa alpina)

Não se sabe ao certo a origem da trompa alpina, mas provavelmente seja uma evolução do lituus romano. Seu comprimento pode variar de 1,5 m a 3,5 m, mas existem versões com até 5 m.

Feita de madeira escavada é um um instrumento de pastoreio do rebanho e de sinalização entre os antigos povoados dos Alpes. A trompa alpina é o instrumento nacional da Suíça.

Semelhante à trompa alpina é o Neverlur ou Birch Bark Lur, é uma trompa feita de madeira da casca da bétula. É tipico da Noruega e Suécia.

Neverlur ou Birch Bark Lur - Flatschart Horns
Neverlur ou Birch Bark Lur

Semelhante ao Neverlur temos o Midwinterhoorn holandês cuja tradução seria “A Trompa do Solstício de inverno”

Um dos mais impressionantes instrumentos de metal da antiguidade era o Lur da idade do bronze (1500 e 400 a.C). Era feito de peças de metal fundidas e sobrepostas, quase sempre em pares do mesmo tamanho mas com as campanhas em direções opostas, em referências às duas presas de um mamute.

Lurs foram encontrados na Dinamarca, Norte da Alemanha e Suécia enterrados em turfeiras e presumivelmente eram usados em cerimônias. religiosas e militares

Lur consegue emitir 8 notas naturais. É o instrumento nacional da Dinamarca.

Na Ásia

Dung é uma trompa de 5 m de comprimento encontrada na China e no Tibete.

Dung - Flatschart Horns
Dung

Na América Central

Sacerdotes Maias tocando uma espécia de trombeta em um mural datado de 400 aC.

Fig. 25 - Trombeta Maia - Flatschart Horns
Trombeta Maia

Na África

Kakaki é uma trombeta de metal de até 4 m de comprimento usada na música cerimonial dos Hauçás, povos da África Ocidental que se encontram hoje principalmente no norte da Nigéria e no sudeste do Níger.

Kakaki Hauçá - Flatschart Horns
Kakaki Hauçá

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Instrumentos de metal

Por Fábio Flatschart

Os instrumentos de metal são a artilharia pesada de uma banda ! Trompetes, trombones, bombardinos, trompas, saxhorns entre outros, dão conta da melodia, da harmonia e da linha do baixo.

Apesar das especificidades de formatos e tamanhos e afinações todos eles tem o mesmo princípio de funcionamento.

Acústica

Os principais elementos dos instrumentos de metal são uma bocal em forma de funil, um tubo e uma campana.

O ar soprado por entre o movimento vibratório dos lábios gera um fluxo de ondas dentro do tubo do instrumento produzindo o som.

Ao alterar a pressão dos lábios e a quantidade de ar você pode criar e controlar uma série de sons naturais, conhecidos como séria harmônica.

Com a evolução dos instrumentos de metal, foi possível preencher as lacunas desta séries harmônica, permitido a emissão de toda a escala cromática.

Série harmônica
 Série harmônica

Bocal

O timbre de um instrumento de metal depende muito da forma do bocal e do tubo do instrumento.

Bocal
Bocal
  • Um diâmetro maior do copo (cup) gera um som mais intenso,
  • Um diâmetro menor do copo (cup) gera um som menos intenso
  • Um copo (cup) mais profundo e um backbore maior resultam em um som mais escuro.
  • Um copo (cup) mais raso e um backbore menor resultam em um som mais claro.
Quatro bocais com copos do mesmo diâmetro, porém com formatos internos diferentes
Quatro bocais com copos do mesmo diâmetro, porém com formatos internos diferentes
  • A – Bocal de trompete antigo – som duro e áspero.
  • B – Bocal de trompete moderno – som redondo e intenso.
  • C – Bocal de corneta de pistões (cornet) – som suave (macio).
  • D – Bocal de trompa – som suave (macio) e escuro.

Formato do tubo

O tubo pode ser cilíndrico, um tubo cujo diâmetro é o mesmo do bocal até a campana. Resulta em um som claro e brilhante, como trompete e trombone.

Tubo cilíndrico
Tubo cilíndrico

O tubo pode ser cônico, um tubo cujo diâmetro aumenta do bocal até a campana. Resulta em um som denso e escuro como a rompa e tuba.

Tubo cônico
Tubo cônico

Importante ressaltar de que o timbre e a qualidade sonora do instrumento também dependem da espessura dos tubos e dos diferentes tipos de metais com os quais são construídos, latão, estanho, chumbo, cobre, bronze, prata e outros.

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Cabreúva, cidade da pinga

Por Maria Daniela Bueno de Camargo Paulino

A partir da segunda metade do Século XIX, as extensas fazendas de cana-de-açúcar passaram a dividir suas terras com a lavoura cafeeira. A estrutura monocultora já existente no Quadrilátero do açúcar, propiciou ao Oeste paulista uma rápida organização e até substituição do açúcar pelo café na região.

No atual território que se oficializou como município de Cabreúva, a partir desse período, houve uma expansão de lavouras cafeeiras para a região Norte, nos atuais Bairros do Bonfim, Caí, Corcovado, Cururu e Pé do Morro, assim como o cultivo de ambos na extensa Fazenda Pinhal.

Com a chegada dos imigrantes na cidade e mais intensamente a partir do início do Século XX, a agricultura se diversificou, suplantando a produção açucareira: uvas, morango, hortaliças e flores foram modificando a paisagem que antes era a dos engenhos na proximidade do Rio Tietê.

Ao longo do Século XX, a cidade chegou a contar com mais de 40 fazendas e sítios com seus alambiques produtores da cachaça, como a Fazenda Figueira Branca, Caninha Cristal, Varginha, Pavaninha, entre outras. A cidade ganhou notoriedade na sua produção com a edição da 1° Festa da Pinga, que ocorreu em 1970 e depois teve uma 2° Edição em 1999.

Na pioneira região de povoamento cabreuvanos, nas colinas do Rio Tietê e Ribeirão Cabreúva, diversos engenhos persistiram, ao longo do Século XX, produzindo a famosa cachaça artesanal que rende fama à cidade atualmente. Hoje, dois alambiques ainda estão em funcionamento: Cachaça Vilela e Rainha da Praia.

Folheto histórico 1ª Festa da Pinga em 1970 (PDF)

Maria Daniela Bueno de Camargo Paulino é Mestra em Ensino de História no IFCH/Unicamp, pós-graduada em gestão cultural: Cultura, desenvolvimento e mercado no Senac, graduada em História e autora de: A escravidão em Cabreúva no século XIX – 1830-1888 e atualmente professora efetiva da rede estadual paulista de ensino.

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A família Rebollo e a musicalidade cabreuvana

Por Maria Daniela Bueno de Camargo Paulino

A família Rebollo é um exemplo da musicalidade como traço marcante da cultura cabreuvana. Atualmente, Roque Maurício Rebollo, mais conhecido como China, atua como músico na Banda São Roque, corporação da qual é diretor desde 1995.

A chegada da família à cidade deu-se em 1870, com Anthony Rebollo, que aqui estabeleceu-se com as novas gerações: o filho Benjamin Rebollo, e os netos Vicente e Roque Alfredo Rebollo. Vicente e Roque participaram da formação da Corporação Musical São Roque, em 1926.

Roque Alfredo Rebollo e Vicente Rebollo, fundadores da Banda São Roque
Roque Alfredo Rebollo e Vicente Rebollo, fundadores da Banda São Roque

Vicente foi o músico e maestro da banda por quarenta anos e faleceu no ano de 1973. Na família Rebollo, a música permeia o dia a dia, pois aqueles que não eram músicos, eram críticos e ajudavam o aprimoramento da musicalidade com suas observações e comentários, como fazia a matriarca, Madalena Rebollo.

Família Rebollo / Cabreúva
Sentada, está a Matriarca Madalena Rebollo, ladeada, à esquerda por Vicente Rebolo e à direita Agostinho Rebollo e Mercedes Rebollo abraçada ao tio avô Roque. Acompanham: Aparecida Rebollo, esposa de Vicente e as crianças, netas de Madalena. Da esquerda para a direita: Izildinha, Maria Madalena e Cecília Fátima – Acervo de Roque Maurício “China” Rebollo

Maria Daniela Bueno de Camargo Paulino é Mestra em Ensino de História no IFCH/Unicamp, pós-graduada em gestão cultural: Cultura, desenvolvimento e mercado no Senac, graduada em História e autora de: A escravidão em Cabreúva no século XIX – 1830-1888 e atualmente professora efetiva da rede estadual paulista de ensino.

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Corporações Musicais Cabreuvanas

Por Maria Daniela Bueno de Camargo Paulino

A cidade de Cabreúva tem sua musicalidade presente nas Bandas Marciais da Cidade que ao longo do tempo se apresentaram nos principais eventos municipais. As Corporações musicais representaram uma importante expressão de sociabilidade e cultura cabreuvanas, desde o Século XIX, atravessando o Século XX e chegando ao XXI, como um importante patrimônio cultural.

As duas principais Corporações musicais são: A Corporação São Benedito, atualmente com as atividades suspensas, mas da qual a Secretaria de Cultura possui o acervo de documentos, indumentária e instrumentos musicais expostos no museu.

Corporações Musicais Cabreuvanas
Fonte : Almanaque Laemmert de 1921

Já a Corporação Musical Banda São Roque, fundada em 26 de Fevereiro de 1926, quando as diferenças políticas na cidade acabaram por desanimar os músicos de uma antiga banda, a Orphelina Cabreuvana, e alguns músicos acabaram por constituir uma nova: “Corporação Musical Banda São Roque’’.

O nome foi escolhido para homenagear o santo, de grande fervor religioso entre os cabreuvanos da época.

Maria Daniela Bueno de Camargo Paulino é Mestra em Ensino de História no IFCH/Unicamp, pós-graduada em gestão cultural: Cultura, desenvolvimento e mercado no Senac, graduada em História e autora de: A escravidão em Cabreúva no século XIX – 1830-1888 e atualmente professora efetiva da rede estadual paulista de ensino.